A
Obsessão Anti-Americana[1]
Carlos de Abreu Amorim *
“L’antiaméricanisme, pour sa part,
repose
sur une vision
totalisant, sinon totalitaire,
dont
l’aveuglement passionnel se reconnaît (...)
au sens que
donne à ce mot Littré : «vaine image
que l’on croit
voir, par peur, par rêve, par folie,
par
superstition» .
Jean-François Revel,
L’Obsession Anti-Américaine,
Plon, 2002
Jean-François
Revel publicou recentemente uma análise admirável acerca de um dos fenómenos
mais paradoxais da nossa contemporaneidade. Indiscutivelmente, constata-se que
aquilo que, nos últimos anos, era uma vaga posição ideológica contextualizada
na lógica da guerra-fria, transformou-se numa questão fundamental do discurso político,
assumindo-se como um dado adquirido, indisputado, para uma franja
surpreendentemente larga da opinião política.
É
verdade que a partir do momento em que os Estados Unidos se tornaram na única
hiper-potência mundial têm todas as probabilidades de verem centrados em si os
medos, os ódios e as responsabilidades por tudo o que não corre bem, por parte
do resto da humanidade. Mas, também, não deixa de ser inquietante o simplismo
com que lhes são imputados todos os males, particularmente por uma certa opinião
ocidental que padece de uma memória excessivamente débil. São as manifestações
anti-globalização que se transformaram em exercícios de anti-americanismo
desenfreado. As tentativas de “compreender” as causas “sociais e
económicas”(!?) do terrorismo internacional. O piedoso horror com que se
encaram os esforços americanos em se protegerem das agressões terroristas,
ignorando que, desta forma, todo o mundo ocidental estaria a ser defendido
reflexamente. Os absurdos que se afirmam a propósito das consequências do
sistema capitalista. As solidariedades incongruentes com aqueles cuja maior
ambição é aniquilarem a nossa forma de encarar o mundo e a vida. Para essas
pessoas, como afirma Revel, “os americanos não fazem nada que não sejam erros,
tudo o que cometem são crimes, tudo o que proferem são disparates, são culpados
de todos os reveses, de todas as injustiças e de todas as amarguras do resto da
humanidade”.
A
reflexão quanto às razões por detrás das razões deste anti-americanismo
compulsivo deve ser feita urgentemente, quanto mais não seja por intuitos de
sarar uma chaga que ameaça alastrar até níveis realmente perigosos. Obviamente,
devemos desconsiderar as manifestações anti-americanas nos países muçulmanos,
dado que raríssimos possuem um regime democrático com liberdades de expressão e
manifestação. Mas, principalmente se nos colocarmos no prisma europeu, existem
factores geracionais e emocionais que não podem deixar de ser tidos em conta. A
actual versão do anti-americanismo, anti-globalização, anti-comércio livre,
anti-capitalismo, possui tonalidades típicas de uma última causa daquelas
gerações que se criaram num ambiente cultural de esquerda, que ambicionavam
construir um mundo novo, com um homem novo, por volta dos anos 50 e 60 do
século passado. Agora que essas gerações estão no poder em todo o lado,
verificam que nenhum dos propósitos porque fizeram barricadas e tanto lutaram
se efectivou. Quase tudo em que acreditavam se desmoronou perante o choque com
a realidade da natureza das coisas e dos homens. Este anti-americanismo
revela-se como uma reserva de ilusão política e social para aqueles que há
muito se desiludiram consigo próprios. É quase uma fonte de juventude emocional
para os que se sentem perdidos e derrotados ao verem o tremendo êxito das
ideias que tanto combateram. É uma verdadeira escapatória redentora que permite
almejar aos que dela enfermam que, afinal, as suas lutas de juventude não foram
um tempo assim tão inutilmente perdido.
Não
é de desconsiderar, ainda, a inveja latente em relação a um sistema político,
económico e social, que provou resultar melhor do que os outros, apesar dos
muitos que insistem em o denegrir. Mas é preciso fazer uma separação de águas –
de facto, a obsessão anti-americana não é compartilhada pelo homem da rua, nem
mesmo em França como demonstra Revel. Cá e lá, é sobretudo uma pseudo-elite
dirigente e opinativa que não consegue perdoar à América o seu inequívoco
sucesso, acompanhados de perto pelo frentismo radical dos que estão sempre
descontentes com o que se passa, aconteça o que acontecer.
Membro do “Círculo Liberal”